Tomamos contato com o trabalho do artista Antonio da Cruz Rodrigues por meio das redes sociais. Presença ativa no grupo fotografia de rua, ele apresenta um olhar original sobre pontos conhecidos da cidade de Lisboa. Assim, por mais que o público conheça o local onde foi feita a imagem – e especialmente por já ter estado no local onde foi feita a imagem – chama atenção encontrar uma cena que talvez já estivesse lá antes da fotografia ser feita e apenas não foi possível vê-la.

Pode-se dizer que as fotografias de Antonio são muito mais o resultado de um trabalho de investigação do que fruto de acasos. Frequentar um mesmo local repetidas vezes em busca do que procura e se deixar na posição de espectador são para ele caminho para novas formas de representar uma dada realidade.

Essa representação do cotidiano que se destaca no fazer de Antonio coincide com o que ele acredita ser função da arte, se é que podemos dizer que para arte há função: a possibilidade de mostrar o que é sabido mas ainda não mostrado. O artista, então, como esse sujeito que não apresenta a novidade, faz melhor: dá-nos a chance de entender que talvez não precisemos de tantas novidades, que o frescor das coisas não está na troca e na renovação constantes mas nos momentos em que vêm à tona um conteúdo que nos toca, desacelerado.

O artista, então, é alguém capaz de promover uma passagem entre o real e as sensações.

Da palavra passagem podemos derivar para a palavra caminho e da palavra caminho para a palavra comunicação. No presente momento, à convite da Fundação Portuguesa de Comunicação está no MUHNAC (Rua da Escola Politécnica, 56/58, Lisboa) exposição na qual Antonio ficou responsável por intervir mediante a reação a uma provocação que dá título à mostra: “Comunicando – Da massificação à convergência, para onde olhar no futuro?”.

Em série de fotografias majoritariamente em preto e branco divididas em quatro blocos, o artista compõe um percurso que traz a lembrança de que a comunicação é um fio sempre presente, ainda quando menos visível – e que com um pouco de atenção ao redor podemos percorrer com nossa imaginação essas ligações mutantes ao longo do tempo.

No primeiro bloco, nos antigos faróis a luz que possibilita a ligação entre dois escuros; do alto, a visão a comunicar o que há no raio de alcance do observador, as câmeras de vigilância a conectar as presenças real e virtual. Diferentes tecnologias e modos de comunicar se sobrepõe ao mesmo tempo em que coexistem.

E quais podem ser os resultados disso? Entre as muitas hipóteses de livre formulação do público, o artista sugere algumas. Ao avançar para o terceiro bloco de fotografias podemos perceber como alcançamos na história da comunicação um ponto onde há fronteiras muito permeáveis: que o homem não prescinde da comunicação é fato, mas será verdadeira a recíproca? Ao nos colocarmos diante dos jogos de espelho capturados por Antonio, já não podemos afirmar com certeza onde se situa a materialidade e os reflexos – lidos aqui como ecos – desse real.

Também os corpos humanos são apresentados com um quê de movimento autômato em direção ao trabalho, à repetição dos outros corpos, à vida – e até mesmo à alienação que a conexão responsável por gerar movimento pode ter como consequência. Durante a conversa Antônio pontua, ainda, a comunicação entre os países, o próprio corpo do viajante como representativo desse veículo, ao mesmo tempo que os aviões hoje cruzam o oceano sem precisar da intervenção humana em sua pilotagem computadorizada.


O trabalho de Antonio com a fotografia parece se tratar, ele mesmo, de uma comunicação. Uma comunicação reestabelecida por meio da arte. Isso porque o gosto pelo fotografar é antigo. Data dos 15 anos ou talvez ainda antes disso; foi o pai quem transmitiu a paixão. Como potência inibida, o desaguar de toda essa informação adormecida ao longo da vida adulta retornou [comunicou?] com força especial no último ano. E a ele, design e professor, tem soado muito bem aos ouvidos ser chamado de artista.

O juízo analítico, a observação do cotidiano e a crítica à sociedade do espetáculo somam-se à libertação da imaginação – e o resultado é o que vemos nas fotos.

Mesmo que com amparo em um trabalho que tem força concreta muito mais que metafísica, o artista para Antonio não deixa de ser espécie de vidente, encarregado de predizer.

Em matéria de predição, Antonio parece por vezes antever um futuro pessimista e promotor de isolamentos. Mas não é bem assim: no último bloco de fotografias da exposição, a presença das crianças e a relação delas com as novas tecnologias dá-nos o tom do mistério e da esperança em rumos imprevistos e muito bons para a comunicação, nos quais os processos de funcionamento da memória e do cérebro humano possam tirar partido da virtualidade crescente. Já nascidos nessa realidade digital estarão os pequenos mais aptos a fazer pontes que tornem menor a distância real entre as pessoas?

Por falar em distâncias, além da série que o público pode encontrar disponível agora para visitação no MUHNAC até o dia 30 de abril, Antonio já tem em mente novo trabalho, para outubro de 2018. Nessa nova investigação, ele se ocupará de olhar para as pessoas que trabalham nas grandes cidades mas habitam fora delas. Outra temática, novos olhares. Ainda assim, o diálogo com o design e a comunicação sempre presentes. Antonio, um homem às voltas com tantas variáveis: o mundo do trabalho, a habitação, a realidade dos centros urbanos e as distâncias reais e simbólicas que se desenvolvem nesses espaços físicos, sociais, humanos.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbado: Antonio da Cruz Rodrigues

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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