Anica (ou Nina) Govedarica nasceu na Croácia.

O nome Anica é uma homenagem feita pelo pai. Nina, a forma como sempre foi chamada pela mãe. Essa uma que desde o nome pode ser duas, é mesmo uma pessoa plural. Em 1998, em busca de fazer sua arte cruzar fronteiras e alcançar mais pessoas, chegou à Lisboa. Na Rua Augusta, uma das mais famosas da Baixa, vendeu muitas aquarelas aos turistas com o objetivo de manter-se até estabelecer contatos.

Recém-chegada, nem tudo foi fácil. Teve de dividir-se em muitas para dar conta de tudo. Mas também se divertiu. Viu gente de todo lugar. E fez bons amigos. Em Portugal Nina conheceu o marido, um português, artista em banda desenhada (histórias em quadrinhos). A forma de arte dele, que passou a compreender e admirar, viria a influenciá-la em sua linguagem. Pelos laços de amor, aprendeu uma nova língua. O casal seguiu juntos por duas décadas. Após o recente falecimento de seu companheiro, a língua portuguesa continua a ser um lugar onde a artista quer estar – porque brilham os laços de afeto nela construídos.

Isso que rutila com luz especial relaciona-se também com a paisagem portuguesa: das características que artisticamente mais chamam a atenção de Nina é, digamos, uma certa luminosidade encontrada em Portugal. O particular a interessa, e a pluralidade também: a artista desenvolve trabalhos a partir das mais variadas técnicas.

Durante muitos anos os abstratos marcaram a sua produção.

Partindo da ideia de que um percurso artístico costuma iniciar-se no figurativo para pouco em pouco alcançar a abstração, o retorno de Nina ao figurativo recebeu de alguns colegas artistas um olhar algo questionador. Ela, entretanto, explica que essa escolha não representa qualquer facilitismo com relação à sua arte e ao direcionamento dela ao público, e que não sentir-se presa a uma linguagem é parte importante na criação de telas que expressem o que precisa ser expressado.

A ocupação de Nina, ofício e expressão, sempre foi a arte. A maturidade artística a permite trabalhar com segurança – aliás, a segurança quanto às próprias escolhas faz referência ao modo como pinta, mas também à decisão sobre os riscos que escolheu viver, a despeito de todas as dificuldades materiais a que os artistas estão sujeitos; preço alto. Mas sua vida é de tal modo dedicada ao seu fazer artístico que é por meio do trabalho o seu jeito de sentir-se viva no corpo e no tempo; a arte como sustento em todos os sentidos. Quando Nina precisa estar muitos dias ausente do contato com pincéis e tintas, um mal estar se avizinha.

A palavra avizinhar faz lembrar que as inspirações não estão apenas nas lindas paisagens costeiras, no mar, em cenários idílicos. A artista vive na zona de Amadora, localizada no subúrbio de Lisboa. Lá, é possível encontrar construções mal conservadas e lixo nas ruas, a atrair, por exemplo, grande quantidade de pombos. Da observação desse cenário por vezes precário surgem obras que transformam a imagem cotidiana, criando para a realidade uma nova perspectiva, uma outra face, com outras características – aquelas que Nina deseja ver refletidas no mundo: uma luz diferente?

As ideias de uma outra face e uma nova perspectiva formam um caminho possível para pensarmos por quais motivos a presença das gaivotas e pombos é recorrente e ora mais ora menos sobrelevada nas telas. O protagonismo das aves, escolhidas como personagens-narradoras, é uma alegoria que possibilita enxergar a imagem e seus prolongamentos sob outro ponto de vista, num plano algo recuado e muito cinematográfico.

Nos figurativos de Nina o que aparenta ser uma imagem de representações claras é o panorama de um universo particular, porta de entrada para histórias cheias de humor e ironia, espelho de sentimentos. Assim, é possível afirmar que a dimensão abstrata resiste e o flerte com o nonsense de aves a cumprir papéis humanos faz-nos refletir sobre o especismo, sobre a frágil e algo caricata condição humana no mundo.

Os lugares do mundo responsáveis por inspirar séries como o Breviário Mediterrânico são aqueles a fazer parte do percurso biográfico da artista – a arte como relação entre o sujeito e a paisagem. Suas telas são como grandes relicários. A realidade é tida como pequena parte de um todo. De um pequeno ponto de partida, que podem ser fotografias de viagens ou objetos, uma reconstrução. Afinal, não será das grandes belezas da arte esse poder de reorganizar a maneira como enxergamos o mundo?

Do publico para o particular, do particular para o público. Nas obras de Nina essas esferas dialogam constantemente. Ao mesmo tempo em que vemos a rua, intuímos o que pode acontecer dentro das janelas. Qual vida se desenrola antes e depois da cena? O que fica fora dela? A perspectiva dos pombos e das gaivotas é a marca de algo inacessível que podemos alcançar apenas com um esforço imaginativo? Ou serão os pombos e gaivotas seres curiosos que nas telas veem-se intrigados em compreender a perspectiva humana? Com as asas e a liberdade voa-se aos espaços intimistas e coletivos.

Nina sabe trabalhar com o lúdico, o onírico e o belo sem precisar renunciar ao sarcasmo. Essa complexidade é fruto de sua visão sobre a interligação originária e inseparável entre literatura, cinema, poesia, desenho, fotografia e pintura.

A convivência da artista com a perspectiva da distância (Portugal – Croácia) relaciona-se com a ideia de proporção que, nas obras, na forma geométrica, é tratada com liberdade – a exemplo do pombo gigante que num dos quadros parece contar-nos que essas aves vão ainda dominar o mundo, ou simplesmente denuncia nossa megalomania. A ocupação do espaço simbólico – verdadeiro real – depende da importância que damos a ele, do quanto enxergamos naquilo que vemos e qual dimensão fazemos das coisas: seja a distância entre dois pontos em um mapa, seja o tamanho de um pombo no centro de uma tela.

A Croácia traz saudades da família e do mar. Lá, de todos os pontos de onde parte a observação, enxergam-se ilhas. Nina lembra que o mar Adriático, diz-se, é o mar das proximidades, da intimidade. A vista do Atlântico, ao contrário, é horizonte sem fim de água, ideia de separação. Anica ou Nina, Croácia ou Portugal, não importa: as linhas horizontais e verticais, as formas retangulares, quadrados contíguos, quadriláteros – a realidade é sempre cheia de lados e dimensões.




Foto: Paulo Andrade
Verbo:
Andressa Barichello
Fotoverbada:
Anica Govedarica

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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